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O marchand Paulo Kuczynski se autodenomina um “caçador de obras-primas”. Com efeito, olhando as nove telas raras de Di Cavalcanti (1897-1976) que ele expõe, a partir de sábado, para convidados, em seu escritório de arte, é justo dar razão ao homem que vive atrás de colecionadores particulares perseguindo o que de melhor a arte brasileira produziu depois do modernismo. Grande nome inspirador da Semana de Arte Moderna de 1922, Di Cavalcanti passou os últimos anos de vida recorrendo a composições repetitivas e temas igualmente gastos, mas as telas da mostra – a maioria dos anos 1930 – conservam o frescor da renovação estética modernista que o levou a buscar uma correspondência visual brasileira para a picassiana reinvenção da figura feminina.
Di Cavalcanti descobriu a pintura de Picasso um ano depois da Semana de Arte Moderna, em sua primeira viagem à Europa, em 1923. Não há na mostra uma mulata da época, mas uma tela da década de 1920, Descanso dos Pescadores, presenteada pelo pintor ao escritor paraibano José Lins do Rego, já mostra uma mulher sentada na areia a desafiar os padrões da época – na forma e no comportamento. A liberação definitiva viria na década seguinte – e a prova são quatro telas em que mulatas se oferecem como padrão alternativo brasileiro das mulheres picassianas. Há, por exemplo, A Mulher do Caminhão (1932), uma Olympia ainda mais despudorada do que a da paródia de Picasso da famosa tela de Manet. Também de 1932 é o pastel Mulher no Divã, cenário matissiano com um nu frontal ousado para a época – e descrito pelo poeta Ferreira Gullar no catálogo da mostra como “a imagem da mulher brasileira”.
Gullar, um dos autores do Manifesto Neoconcreto em 1959, rendeu-se às formas curvas de Di Cavalcanti, escrevendo no texto de abertura que Di Cavalcanti, ao contrário de seus contemporâneos da Semana, “fala do Brasil suburbano e busca na mulher brasileira mestiça a expressão de um novo conceito de beleza em contraposição à da arte acadêmica, que retratava a mulher branca e sofisticada”. Vale acrescentar que o Brasil, na época, a exemplo do que acontecia na Europa, assimilou o discurso da “raça pura”, promovendo concursos de eugenia. Não é pouco, portanto, a descoberta, segundo Gullar, “de uma nova Vênus mulata, de lábios carnudos, seios bastos e quadris pronunciados

‘Poeta com flor’: desenho de Di Cavalcanti publicado na revista ‘Para Todos’, ilustrando poema de Oswald de Andrade
‘Serenata’: óleo sobre tela da década de 1940, marcada por pinturas de tons escuros, é definido por Ferreira Gullar como uma obra plena de poesia
‘Descanso dos Pescadores’: óleo sobre tela da década de 1920 foi presenteado pelo artista ao escritor José Lins do Rego e nunca saiu da casa de sua família
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