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“New York”, fotografia de colagem de cartões-postais que integra a série “Cartões-Postais de Lugar Nenhum”Foto: Vik Muniz / Divulgação

Vik Muniz já fez uma Mona Lisa com geleia, um Che Guevara com feijão e um Frankenstein com caviar. Em outros trabalhos, ficou conhecido pela forma criativa com que usa sucata e lixo eletrônico para compor grandes retratos só identificáveis a certa distância, como na abertura da novela Passione (2010).

Um dos artistas brasileiros mais requisitados no Exterior, Vik apresenta sua primeira exposição em Porto Alegre. As mais de 70 obras de O Tamanho do Mundo, no Santander Cultural, não dão apenas uma amostra da produção que tem sido tão bem recebida pelo mercado. Oferecem também a chance de se conhecer um artista que, nos últimos 25 anos, enquanto ampliava sua inserção no circuito internacional e se tornava um nome cada vez mais afamado, seguiu experimentando e mudando, sempre com obras de comunicação imediata e que embaralham a percepção.

Com inauguração para convidados nesta terça-feira (20/5), a mostra estará aberta ao público na quarta-feira (21/5). No hall do térreo, há esculturas e objetos da fase inicial de Vik, nos anos 1980, quando deixou o Brasil e se mudou para Nova York. Estão ali obras baseadas em imagens culturalmente conhecidas, mas que adquirem novos significados quando recriadas ou recolocadas de outra forma. É o caso da caveira de palhaço, de 1989, que abriu as portas do mundo para Vik. Ou da escultura que recebe o visitante, um Mickey de madeira, descolorido, todo cravejado de pregos. O ambiente dessa parte da exposição é inspirado nos antigos museus de ciências naturais.

– São objetos irônicos que ganham tratamento de relíquia nessa ambientação – diz a curadora, Ligia Canongia. – O trabalho do Vik lida com a questão falso/verdadeiro. Ele investiga a percepção e os modos de ilusão.

Nas galerias do Santander, está a produção dos anos 1990 para cá, quando Vik seguiu pesquisando processos criativos de construção de imagens e passou a usar a fotografia para registro final das obras. São projetos trabalhosos e demorados, alguns monumentais, que envolvem etapas e demandam paciência, como nas séries Earthworks, Imagens de Nuvens e Cartões-Postais de Lugar Nenhum, cujo impacto é causado ao se descobrir o processo e as pessoas envolvidas (leia nos textos ao lado).

– Mais do que o material e a técnica, me interessam as relações. Trabalho colando as coisas umas nas outras. Sou um grande artista de mosaico – diz Vik, 52 anos, em entrevista exclusiva a ZH. – O trabalho conceitual envolve procurar o que se relaciona e não se relaciona. Busco encontrar conexões e certas relações.

Ao apresentar uma panorâmica da produção de Vik, O Tamanho do Mundo ainda inclui o interesse recente do artista pela ciência e por imagens microscópicas, com as séries Colônias e Castelos de Areia, até então inéditas no Brasil.

– As coisas não são imediatas, eu vou buscando. Gosto de lidar com a zona neutra entre a matéria e o significado. Sou curioso e produzo muito para encontrar algo.

Colagens postais

Em uma das galerias laterais do Santander, está o segmento mais colorido e pop da exposição de Vik Muniz. É a série Cartões-Postais de Lugar Nenhum, de 2014, exibida em conjunto, com quatro grandes painéis, pela primeira vez no Brasil. À distância, o observador reconhece as paisagens aéreas de Rio de Janeiro, Paris, Hong Kong e Nova York. Ao se aproximar delas, a sensação é de surpresa: percebe-se que, na verdade, são colagens enormes, feitas com incontáveis pedaços de cartões-postais de épocas e lugares variados.

– Essa coisa de o afastamento e a aproximação gerarem significados diferentes na percepção nunca foi muito explorada na fotografia e sempre me interessou – diz Vik.

Marcas na terra

As 33 fotografias da série Earthworks parecem uma documentação de marcas deixadas por extraterrestres em regiões não urbanas – lembra do filme Sinais? –, mas com certa ironia em relação aos objetos de uso humano. São formas de cabide, lâmpada, tesoura, colher, dado e clipe de metal, entre outros. Os desenhos de Vik Muniz foram transpostos em grande escala, com a colaboração de técnicos, para áreas de mineração da Vale do Rio Doce. Com o GPS, o traçado era sinalizado no terreno, indicando onde as retroescavadeiras deveriam cavoucar. O resultado só podia ser visto do alto, de onde, sobrevoando de helicóptero, Vik comandava a operação e fotografava. O trabalho remete às intervenções monumentais em paisagens naturais de artistas como Robert Smithson (1938 – 1973). Na série, Vik embaralha o espectador intercalando fotos de alguns desenhos na terra que foram feitos à mão – ou seja, em uma escala bem menor que as imagens aéreas.

Desenhos no céu

Na série de pequenas fotografias Imagens de Nuvens, desenhos de traço branco enevoado parecem ter sido aplicados sobre as imagens de fundo acinzentado. Prestando atenção, abaixo do céu aparecem grandes prédios. Os cliques foram feitos em metrópoles como Miami, San Diego e Manhattan. Nessas fotografias, Vik brinca com a percepção manipulando a noção de escala. Para fazer os desenhos no céu, como se fossem nuvens delineadas, o artista alugou aviões que manobravam para deixar os rastros de fumaça conforme suas orientações.

– Passei a trabalhar com fotografia porque ela começou a me dar maior liberdade para lidar com a criação num plano mental antes do material. E a principal causa é a possibilidade de brincar com a escala – conta Vik.

Entalhado na areia

Inéditos no Brasil, os trabalhos da série Castelos de Areia parecem desenhos entalhados em pedras. Na verdade, são feitos em grãos de areia e envolvem tecnologias analógicas e digitais. Viajando pelo mundo, Vik reuniu desenhos de castelos que fez usando uma câmera lúcida, ferramenta ótica do século 17 que projeta, na superfície em que o artista desenha, a imagem que tem diante de si. Com colaboração do Massachusetts Institute of Technology (MIT), os castelos foram gravados em grãos de areia por meio de feixes de íon. Cada linha tem 50 nanômetros de diâmetro – um fio de cabelo tem cerca de 50 mil nanômetros. Ao final, com microscópio eletrônico, Vik capturou as imagens e as ampliou. Foram anos de pesquisa para desenvolver o processo.

Mandalas de bactérias

Depois de passar por Israel, Colônias, nova série de Vik, estreia no Brasil. As tramas e os padrões geométricos das duas obras da mostra parecem estudos de estamparia. Aproximando-se, o espectador identifica que são imagens microscópicas como as das aulas de ciência. Com a colaboração do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Vik usou células hepáticas sadias em um trabalho e cancerosas em outro. No material de análise microscópica, as bactérias migravam da superfície com antibiótico para as ranhuras, gravadas como mandalas, onde a substância não havia sido aplicada, formando padrões geométricos vivos e em movimento. Essas imagens são fotografadas microscopicamente.

Vik Muniz – O Tamanho do Mundo
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Abertura terça-feira (20/5), às 19h, para convidados. Visitação a partir de quarta-feira (21/5), de terça a sábado, das 10h às 19h, domingo e feriado, das 13h às 19h. Até 10 de agosto. Gratuito.
> Santander Cultural (Praça da Alfândega, 1.028), em Porto Alegre, fone (51) 3287-5500.
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Onde estacionar: na Siqueira Campos, é permitido estacionar na rua. Também há estacionamentos pagos na região.
> A exposição: apresenta um panorama da trajetória de 25 anos do artista brasileiro, com cerca de 70 obras entre esculturas, objetos e fotografias. Também há uma sala com vídeos e outra com livros

http://m.zerohora.com.br/287/entretenimento/4504198/artista-brasileiro-de-destaque-no-exterior-vik-muniz-apresenta-sua-primeira-exposicao-em-porto-alegre

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