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Há pouco mais de um mês, o ator Márcio Santana, de 22 anos, começou a fumar. Ele detesta cigarros. É daqueles que se afastam de uma rodinha de amigos se alguém solta fumaça demais. Tornar-se fumante faz parte de sua preparação para viver o lendário compositor Noel Rosa, autor de clássicos como “Três apitos” e “Palpite infeliz”, num musical que conta a vida do artista. Quando foi convidado, Santana pesquisou, viu imagens, ouviu canções dia e noite, frequentou botecos de Vila Isabel. “Só sosseguei quando entendi o mundo em que Noel vivia”, afirma. Ele também aprendeu a tocar violão e perdeu 5 quilos, para se tornar mais parecido com o personagem. Um nariz protuberante também ajudou. A semelhança física e musical dos dois é essencial ao musical Noel, o feitiço da Vila, em cartaz desde 1o de março no Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro.
Encontrado o clone de Noel Rosa, agora procuram-se imitações fiéis de Elis Regina e Cássia Eller. Eles são os próximos músicos brasileiros cuja vida será transformada em musical. Para encontrar uma mulher para o papel de Cássia Eller, o produtor Gustavo Nunes promete buscar candidatas em todo o Brasil. Chegou a cogitar fazer um reality show em parceria com um canal de televisão – a ideia não vingou. “São muitos requisitos para interpretar uma artista singular como ela: talento vocal, cênico e humor, sem falar na semelhança”, diz Nunes. Em busca da atriz perfeita para Elis – O musical, com estreia prevista para agosto, a produtora Aniela Jordan diz que a semelhança conta, mas não é o principal. “Com recursos de maquiagem, é possível fazer a transformação necessária”, afirma Aniela. “O desafio maior é encontrar alguém que cante bem e se expresse como ela fazia. Especialmente porque ela está na memória de várias gerações atuais.” Para escolher a melhor candidata nos testes, que começam ainda em março, Aniela contará com a ajuda de Nelson Motta – amigo de Elis e autor do roteiro do musical.
As duas peças conseguiram orçamentos extraordinários para produções nacionais. Os produtores de Elis – O musical pretendem captar R$ 4,5 milhões para o espetáculo. O valor arrecadado para produzir Cássia Eller poderá chegar a R$ 5,5 milhões. A razão do otimismo é o sucesso do espetáculo Tim Maia – Vale tudo, que lota tea­tros em todo o Brasil há um ano e meio. A procura por um ator para interpretar o personagem principal foi árdua e terminou com um eleito improvável: o jovem ator Tiago Abravanel. “Um dia, o João Fonseca, diretor, me telefonou dizendo que havia encontrado um Tim Maia branco, paulista, judeu e neto do Silvio Santos”, diz Nelson Motta, autor da biografia de Tim Maia e do roteiro do espetáculo. “Dei uma gargalhada. Quando vi o Tiago cantando, sabia que daria certo. Até o próprio Tim aprovaria.” A escolha agradou ao público. Boa parte da responsabilidade pelo êxito do musical foi atribuída à performance de Tiago, que se tornou uma celebridade com o sucesso nos palcos.

Os ídolos voltam aos palcos (Foto: P. Berton, Lenise Pinheiro/Folhapress, Ana Stewart, Osvaldo Luiz e Divulgação)(Fotos: P. Berton, Lenise Pinheiro/Folhapress, Ana Stewart, Osvaldo Luiz e Divulgação)

Antes de se tornar uma febre com Tim Maia – Vale tudo, as biografias musicais já eram comuns nos palcos brasileiros, embora com produções mais modestas. Em 1999, Soraya Ravenle arrebatou a plateia com Dolores, vivendo a cantora e compositora Dolores Duran. De 2001 a 2003, Clara Nunes – Brasil mestiço mostrou a vida da cantora Clara Nunes, morta em 1983. Coube à autora e produtora do espetáculo, Ana Velloso, a tarefa de interpretar o papel principal. Dançarina, ela treinou sua expressão corporal à exaustão, adequou seu tom de voz ao da cantora, mais grave, e aprendeu as divisões que ela dava a cada canção. O resultado surpreendeu o público. “Muita gente me dizia que Clara tinha baixado em mim. O nome disso é técnica e repetição”, diz.
Outros casos famosos de encarnação em musicais biográficos brasileiros são o Renato Russo de Bruce Gomlevsky e o Cartola de Flávio Bauraqui. Entre 2006 e 2009, Gomlevsky passou por 15 cidades com a peça Renato Russo, em que interpreta o líder da Legião Urbana, morto em 1996. Num monólogo entremeado por canções famosas da banda, Gomlevsky levava os espectadores ao delírio com seu desempenho excêntrico. Imitava até a dança desconjuntada que Renato fazia, com os braços e pernas, em seus shows. Contou com a ajuda de uma fonoaudióloga para conseguir atingir as notas mais graves, uma marca de Renato.
O sucesso de Bauraqui veio em 2004, quando ele encarnou o sambista Cartola tão bem que recebeu cumprimentos de ex-parceiros do músico. Quando recebeu o convite para o musical Obrigado, Cartola, tornou-se um obcecado pela vida do compositor. Chegou a andar na rua com o figurino da peça – terno, óculos escuros e nariz escurecido – só para sentir o olhar de quem passava. “Fui a sambas de mesa de bar, aprendi a cruzar a perna como ele fazia, mudei o timbre da voz. Acho que interpretei a realeza que ele tinha”, diz Bauraqui. “Amigos da Mangueira, que conviveram com ele, vinham me falar: ‘Eu estava com saudade de você’.”
A saudade de artistas como Cartola, Elis ou Cazuza move o público na direção desses musicais. Apesar de levar multidões aos teatros, esse tipo de peça mostra uma fraqueza na dramaturgia nacional. Os musicais são encarados como concertos de artistas mortos, em que o espectador quer cantar junto, e não como obras originais. “No final do musical do Tim Maia, as pessoas não vão embora, ficam gritando bis”, diz Motta. “De alguma forma, elas creem que se trata de um show.” Uma vez criada a cultura nacional de musicais, com a grande contribuição das biografias, os produtores nacionais terão no futuro o desafio de criar musicais com canções inéditas – a exemplo de espetáculos do passado, como A ópera do malandro (1978), de Chico Buarque, ou O grande circo místico (1983), de Chico e Francis Hime. Uma aposta como essa daria impulso à carreira de novos artistas, cuja vida poderia um dia ser transformada em biografia musical

22/03/2013 – http://revistaepoca.globo.com//Mente-aberta/noticia/2013/03/procuram-se-clones-cantores.html

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