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Se John Lasseter ainda não conseguiu realmente recuperar o sucesso das animações da Disney, não se pode dizer que o atual chefe de criação do estúdio nada tentou. A Princesa e o Sapo (2009) significou o retorno aos filmes em 2D, trazendo também a primeira princesa negra. Um ano mais tarde, Enrolados readaptou e remodelou clássico conto de fadas, no melhor trabalho do estúdio em anos. Desta vez, Lasseter surpreende ao fugir de grandes pretensões comerciais (diferente do que fez pela Pixar com Carros 2) e histórias moderninhas, presenteando o público com o quinto longa do ursinho criado por A. A. Milne, há mais de 80 anos. E como Pooh continua carismático!

A proposta do também produtor executivo de O Ursinho Pooh, de reverenciar e prestigiar o que o passado já exaltou, agora dá largos passos de eficiência. O retorno ao Bosque dos 100 Acres significa sim uma ousadia que vai na contramão do que hoje se vê técnica e narrativamente no mundo dos desenhos animados. É o exato oposto do que nasceu com Shrek em 2001. Aqui as risadas não vêm da sátira ou do escatológico, mas sim da inocência e pureza que dão origem a situações simplistas, e ainda sim adoráveis, que encantam a todos que ainda guardam algum espírito de criança dentro de si.

Nascida das mãos de nada menos do que sete roteiristas, incluindo Stephen J. Anderson, que dirige o filme ao lado de Don Hall, a trama aposta em comuns dias na vida de Pooh e seus amigos. Não há nada fora de controle, nenhum vilão assustador se enconde pela floresta, nem personagens novos surgem. Pooh segue absolutamente alucinado por mel, assim como Leitão permanece como seu fiel amigo. Tigrão também não poderia estar menos elétrico. Mas há o diferencial que faz da produção algo cinematográfico, que ainda assim preserva a essência da animação.

É através do diálogo constante com a literatura (e do, até certo ponto, didático incentivo à leitura e à imaginação) que o filme busca originalidade e lembra a todos que o que estamos acompanhando é uma ficção, originalmente inventada por um autor que fez de seu filho o morador de um bosque habitado por seus reais bichos de pelúcia, como a cena de abertura gosta de deixar claro ao exibir o quarto do verdadeiro Christopher Robin ou quando Pooh rasga a barriga para poucos segundos depois costurá-la com a maior naturalidade. Vale ressaltar a bem mesurada intervenção do narrador, que não se limita a descrever os fatos. Ele conversa com os bichos, bem como brinca com o protagonista, acrescentando uma leveza ainda maior a história.

A natureza de todos é explicitada ao enclausurá-los dentro de um livro. No entanto, a estratégia não se limita ao abrir e fechar da obra, em uma já batida ideia nas adaptações dos contos de fada. Ela permanece, ao diversas vezes exibi-los interagindo dentro das páginas do livro, pulando de uma folha a outra, ou até mesmo bagunçando e levando as letras para dentro da imagem/animação. Algumas delas servem até mesmo de escada para que o bando deixe a armadilha que eles mesmos aprontaram para o temido Voltogo, um monstro inventado por um mal entendido durante uma equivocada leitura de um bilhete.

A sequência, por sinal, é apenas um dos exemplos do teor das situações apresentadas pelo longa. A principal delas, que percorre do primeiro ao último ato, gira em torno do mero desaparecimento do rabo de Ió, o asno depressivo e hipocondríaco, que é uma principais atrações do filme. A busca por um objeto substituto comove do inteligente corujão à dedicada mãe canguru Kanga. E como não poderia ser diferente, os mistérios são resolvidos da maneira mais graciosa possível, sem revelações chocantes ou culpados agressivamente acusados ou punidos.

Os personagens de O Ursinho Pooh são únicos. Só eles sabem ser inocentes sem se tornarem imbecis. Digamos que os atos estúpidos que realizam nunca advêm de forçações de barra. São naturais, como os de uma criança ainda em aprendizado. A diferença é que eles não crescem. E aqui o ursinho de Christopher Robin volta a atacar com, como ele mesmo diz, o seu cérebro pequeno. Além dele e do já citado Ió, destacam-se o medroso Leitão (incapaz de lançar uma corda para resgatar os amigos) e o próprio Tigrão, que, ao lado do asno, participa de uma das melhores cenas da produção, contrapondo a preguiça deste com a energia daquele.

Cientes de que possuem em mãos uma obra cheia de qualidades, mas que pode se tornar enfadonha se não bem dirigida e editada, os diretores Anderson e Hall encurtam a duração (são exatos 69 minutos de filme), acrescentam medianas sequências musicais e outras que exibem os bichos como se desenhados em giz, ressaltando a intenção de fugir de avançadas técnicas de animação e focar-se no que têm para contar. Resgatando um dos mais queridos personagens animados do mundo, John Lasseter, enfim, dá o seu mais acertado passo na Disney, mesmo que, para tanto, tenha tido que olhar bastante para trás. O espírito infantil que ainda insiste em sobreviver na mente de muitos agradece!

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Dom, 17 de julho de 2011 – 22h39 – Darlano Dídimo é crítico do CCR desde 2009. Graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é adorador da arte cinematográfica desde a infância, mas só mais tarde veio a entender a grandiosidade que é o cinema

http://cinemacomrapadura.com.br/criticas/216911/o-ursinho-pooh-personagem-classico-tem-retorno-gracioso-aos-cinemas/

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