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Apontada como grande sensação da Flip — Festa Literária de Paraty que acontece no início do mês —, a escritora argentina é uma nerd sui generis. Vive rodeada por hackers, adora filosofia e, com um só livro, conseguiu provocar a ira da esquerda argentina e o respeito dos críticos internacionais.

Por Marina Caruso, de Bariloche. Foto Eduardo Knapp
Eduardo Knapp

 

Ela tem só 33 anos e encabeça a lista de escritores argentinos mais traduzidos. Do farsi ao finlandês, é difícil um idioma que não tenha ao menos flertado com a obra de Pola. Publicado na Argentina em 2008, As teorias selvagens, seu único livro, chegou ao Brasil há dois meses, pela editora Benvirá. É, como diria a autora, uma “comédia sobre a guerra e os jogos sexuais da juventude” e, a partir de uma narradora obsessiva e de quatro geeks, critica da esquerda argentina à hegemonia do Google. A obra, no entanto, não é de leitura fácil. Cheia de citações e críticas sociais, exige persistência e familiaridade com a filosofia. Porém, ultrapassadas as barreiras, vale muito a pena. Assim como sua autora.

Formada em Filosofia, Pola (diminutivo de Paola) fala sobre pensadores como Kant, Hobbes e Rousseau com a mesma naturalidade com que discorre sobre os estilistas Alexander McQueen e Marc Jacobs. “A moda é a mais vanguardista das artes. Tem importância política”, diz, enquanto acaricia Gmail, gata que adotou ao trocar o apartamento de Buenos Aires pela casa de Bariloche.

É ali, ao lado do marido Emiliano e em frente ao lago Nahuel Huapi, que Pola escreve sua próxima novela e descansa da perseguição sofrida nos últimos anos por conta das polêmicas em torno do livro. “Disseram que transei com críticos para receber elogios”, disse a escritora a Marie Claire, em sua casa. Durante dois dias de conversa, ela falou abertamente sobre as paranoias geradas pelas perseguições, o estranhamento que sua beleza causa entre acadêmicos e de temas polêmicos como a experiência com as drogas e o envolvimento com mulheres.

Marie Claire Dividiria sua vida em antes e depois de As teorias?

Pola Oloixarac Sim. Agora o tempo urge. No ano passado, fui a Iowa, a Cambridge, a Nova York e à Nasa, participar de debates e conferências. Quase não atualizei os blogs [a escritora tem dois, um sobre orquídeas e outro de cultura e comportamento] ou vi os amigos. No início, fiquei fascinada. É o máximo estar em um lugar onde todo mundo quer saber sua opinião, convidar para festas. Mas, depois de um ano cansa, perde a graça.

MC Por isso você trocou Buenos Aires por Bariloche?

PO Já não tinha mais vontade de estar em Buenos Aires. Queria me dedicar à escrita, e aqui, com essa vista [aponta para o lago que reflete o pôr do sol], é perfeito. Em Buenos Aires, o mundo literário é feito de panelinhas e fofocas. Cansei.

MC As teorias selvagens é um livro duro, cheio de citações filosóficas e referências políticas. Isso não distancia o leitor?

PO Há quem diga que sim. Quando o livro saiu na Espanha, em 2009, disseram que era para um nicho de intelectuais e, de preferência, argentinos, que entendem essa mania da esquerda de viver do passado. Mas, no fim, a obra vendeu três vezes mais lá do que na Argentina. E foi traduzida para quase dez línguas. Acabo de fechar uma tradução em farsi. Já imaginou ir ao Irã para divulgar o livro?

MC A reação lá pode ser pior do que na Argentina. Eles são conservadores e a obra fala de sexo, drogas, política…

PO Faz parte do meu projeto de dominação do mundo [risos]. Se bobear, não serei mais achincalhada lá do que fui aqui.

MC O que aconteceu?

PO No início, houve uma série de críticas boas. Uma, duas, três. Depois, disseram que eu era uma escritora de direita e devia me retratar pedindo desculpas à nação. “Ela zombou da esquerda, tem de pagar”, diziam. Publicaram uma matéria de seis páginas numa revista de literatura dizendo que eu não era uma escritora, mas uma farsante. Foi o cúmulo do ridículo e, ao mesmo tempo, uma propaganda ao contrário. Passei a ser discutida por intelectuais argentinos do mais alto escalão, como Beatriz Sarlo, a maior crítica literária do país, e Horacio González, diretor da biblioteca nacional. Eles, felizmente, gostaram da obra. Mas os que não gostaram eram duríssimos. Um deles disse: “Pobre Pola, é tão bonita, deveria contentar-se com isso, em vez de escrever”. Em um só blog, havia nove mil comentários me detonando. Foi uma experiência sociológica.

http://revistamarieclaire.globo.com/Revista/Common/0,,EMI243199-17737,00-POLA+OLOIXARAC+QUEM+DISSE+QUE+INTELECTUAL+TEM+DE+SER+FEIO.html

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