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O retorno da novela O Astro à tela da Globo, como minissérie em 60 capítulos a partir de 12 de julho, não é, como se diz nos créditos finais de um folhetim, mera coincidência. A trama foi a aposta da emissora, que a exibiu no fim dos anos 1970, para marcar os 60 anos da teledramaturgia brasileira e abrir uma possível faixa de remakes às 23h. Uma aposta de peso. Clássico de uma grife da dramaturgia nacional, a autora Janete Clair, e responsável por criar padrões que ainda são seguidos pelos autores de hoje, O Astro é considerada uma das melhores novelas já produzidas. 

Francisco Cuoco durante cena de ilusionismo da novela O Astro da Rede Globo

Francisco Cuoco durante cena de ilusionismo da novela O Astro, da Rede Globo – Divulgação/TV Globo

Foram várias as inovações de O Astro. Ela usou o suspense de maneira inédita, e fez com que os brasileiros se perguntassem por meses “quem matou Salomão Hayala”. O bordão seria retomado anos depois em Vale Tudo, com a morte de Odete Roitman. E ainda hoje, quando é preciso vitaminar o ibope de uma trama das 21 horas, o truque do assassinato com vários suspeitos é usado: Passione, que esteve no ar até janeiro deste ano, certamente não foi a última a lançar mão dele.

O personagem principal de O Astro também causou estranheza em 1977. Nunca houvera no horário nobre um anti-herói tão sedutor quanto Herculano Quintanilha (papel que foi do ator Francisco Cuoco e agora é de Rodrigo Lombardi), astrólogo charlatão e desonesto. Dali em diante, o estudo da ambiguidade moral foi um dos temas principais das novelas.

Há muito mais para lembrar: Tony Ramos, por exemplo, protagonizou o primeiro nu masculino, enquanto Elizabeth Savalla tinha um trabalho inesperado – era uma mulher batalhadora, que ganhava a vida dirigindo um taxi. A menopausa foi um tema delicado que Janete Clair se atreveu a abordar. 

O Astro, a releitura – Embora em clássico não se deva mexer muito, como recomenda Cintia Lopes, co-autora do livro A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo, o remake de O Astro deve conter adaptações. “Lá se vão mais de vinte anos entre uma versão e outra. Com isso, foi preciso modernizar o perfil dos personagens. Mantivemos o essencial, mas os caminhos serão diferentes”, afirmam os autores Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro.

A trama é centrada no trambiqueiro com pinta de vidente Herculano Quintanilha. Ele tenta dar um golpe nos moradores de uma cidade pequena, mas é enganado por seu parceiro, o também desonesto Neco (Flávio Migliaccio, agora Humberto Martins), que foge com todo o dinheiro. Herculano é preso, e na cadeia aprende sobre ilusionismo. Quando ganha a liberdade, passa a se apresentar em um teatro no Rio de Janeiro, e se transforma no Professor Astro.

É durante os shows que Herculano reencontra seu desafeto Neco e conhece sua paixão Amanda (Dina Sfat, agora Carolina Ferraz). Ele se envolve ainda com o poderoso empresário Salomão Hayala (Dionísio Azevedo, agora Daniel Filho), que é pai de Márcio (Tony Ramos, agora Thiago Fragoso).

A sintonia com a versão original da novela pode ser encontrada em brincadeiras caras aos remakes. Francisco Cuoco volta como o mestre Ferragus, tutor de Herculano na arte da magia. Daniel Filho, que dirigiu a primeira novela  com Gonzaga Blota, será o novo Salomão Hayala. O tema de abertura, a canção Bijuterias, de João Bosco, viva no inconsciente coletivo, retorna igual para a satisfação dos saudosos. E, para quem está se perguntando o que acontecerá com Salomão Hayala, a resposta é sim, ele vai morrer. Já o assassino deve mudar. Será preciso assistir à trama para conhecê-lo, dizem os autores, que querem repetir a comoção causada pelo folhetim original.

Em 1978, a mobilização em torno do assassinato do industrial libanês ganhou não apenas as manchetes de jornais e revistas, mas também o interesse de Ernesto Geisel e de Carlos Drummond de Andrade. O general-presidente lançou a infame pergunta ao diretor Daniel Filho, ao que teve de ouvir tratar-se de um “segredo de estado”. E o poeta sepultou o assunto na coluna que assinava no Jornal do Brasil – só depois, é claro, de subirem os letreiros finais. “Agora que O Astro terminou, vamos cuidar da vida, que o Brasil está lá fora esperando.”

Remake, força e risco – Releituras não são, por si sós, garantia de sucesso. Da mesma aclamada Janete Clair, Pecado Capital, por exemplo, não repetiu o sucesso original ao voltar à TV na faixa das 18h, em 1998, com texto de Glória Perez. A Globo testa agora um formato mais enxuto, num horário que pode atrair tanto saudosos do original quanto um público bem mais jovem.  “É bom que se mostre às novas gerações a relevância dos clássicos”, diz Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia de Artes e Ciências da Televisão de Nova York. “Os clássicos dão estofo e cultura a pessoas que nasceram mergulhadas na cultura televisiva e digital 

http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/a-nova-%E2%80%98o-astro%E2%80%99-60-capitulos-e-diversas-licoes-de-dramaturgia

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