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Por Ludmila Vilar
   Divulgação

Se tivesse sido programado, o timing não seria tão acertado. Em 1992, quando o Brasil se via às voltas com os escândalos de corrupção do governo do presidente Fernando Collor de Mello, a Rede Globo passou a exibir a minissérie “Anos Rebeldes”, de Gilberto Braga. Em mais uma boa lembrança do Canal Viva, a história, ambientada nos anos de ditadura militar no país, está sendo reprisada a partir desta semana. A princípio, o Brasil de Collor não tinha muito a ver com o Brasil de “Anos Rebeldes”. Mas para quem foi um “carapintada”, os estudantes que saíram as ruas para pedir o impeachment do presidente, tinha sim. No mínimo, as manifestações foram uma onda embalada pelo enorme sucesso da série na época. Uma onda que, lamentavelmente, nunca mais voltou. Mas que deixou clara a força da minissérie inspirada no livro “1968 – O Ano que não terminou”, de Zuenir Ventura, e dos personagens vividos por Claudia Abreu, Cássio Gabus Mendes, Marcelo Serrado, Malu Mader e de uma estonteante Beth Lago, na época se despedindo da carreira de modelo.

Como toda minissérie que se preze, “Anos Rebeldes” tem um caso de amor. E isso é o pretexto levar o espectador a mergulhar no cotidiano do Brasil dos meados dos anos 60. Maria Lúcia (Malu Mader) e João Alfredo (Cássio Gabus Mendes) parecem ser o avesso um do outro – e, por isso mesmo, se apaixonam enlouquecidamente. Ela, uma moça de classe média arredia a idealistas que queriam mudar o mundo. Ele, o perfeito idealista de classe média, com uma única certeza na vida: a de poder mudar o mundo. No Brasil daquela época o primeiro passo para poder mudar o mundo era garantir que os militares não lhes roubassem a liberdade. E, em 1964, ano em que a história de Anos rebeldes começa, foi justamente isso que o Exército fez: um golpe tirou o poder do presidente Jango, eleito democraticamente, e instituiu um governo militar. Na prática, isso significava que não haveria liberdade de expressão (só para citar um exemplo: se facebook ou twitter existisse não poderiam ser usados no Brasil), de imprensa (você não teria acesso a esse texto) e de organização política. O governo decidiria tudo que seria permitido e tudo que não. Foi uma época lembrada por prisões, torturas e desaparecimento de amigos que de uma hora para outra, sem explicação, sumiam e nunca mais voltavam.O filme “O que é isso, companheiro?”, de Bruno Barreto, acompanha a trajetória de um grupo de jovens que resolve pegar em armas para enfrentar o governo militar nos anos 60.

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Todo esse cenário sombrio foi marcado também pelos que se envolveram na resistência ao sistema. Eram, geralmente, jovens de classe média, artistas, intelectuais, jornalistas, profissionais liberais, gente como os personagens Maria Lúcia e João Alfredo. Foram também anos especiais no cenário cultural. Tempos dos grandes festivais de música em que despontaram nomes como Gilberto Gil, Caetano e Chico Buarque. Da consagração de arquitetos como Oscar Niemeyer. De novos gêneros musicas como a Bossa Nova. De bandas como Beatles e Rolling Stones. De rebeldes como Janis Joplin e Jim Morrison. De ícones como Brigitte Bardot. Na moda, os hits eram a minissaia, o vestido tubinho e a calça jeans – pela primeira vez as mulheres incorporaram a calça ao seu look cotidiano. Londres e sua Carnaby Street eram o centro do mundo – tudo que era novo e moderno vinha de lá. Mas o Rio de Janeiro e Paris eram as cidades mais charmosas do planeta.

Nos anos 60, Brigitte Bardot era a grande musa do cinema francês e da juventude idealista que queria mudar o mundo. Ela causou comoção quando veio ao Brasil naquela época e alugou uma casa em Búzios para passar uma temporada com Bob Zaguri, produtor marroquino que já havia morado no país

Nos anos 60 Londres era conhecida como Swinging London. A expressão refere-se à maneira como a cidade pulsava naquela época, exportando moda, música e tendências para o mundo inteiro.

Se nos anos 50 a juventude queria manter o status quo, delineado pela paz e a abundância que finalmente haviam conquistado depois dos anos de trevas da Segunda Guerra Mundial, nos 60 ela queria sacudir o mundo, romper com tudo, inventar um jeito de viver completamente diferente dos seus pais. É por isso que quem acompanhou a reprise de “Anos Dourados” não pode perder a de “Anos Rebeldes”. Trata-se de certa forma da continuação da mesma história. Os adolescentes da década dourada foram os rebeldes dos anos de chumbo. E os carapintadas, a primeira geração que teve liberdade para ir às ruas após três décadas, são filhos deles.

http://revistamarieclaire.globo.com/Revista/Common/0,,EMI237706-17642,00-REPRISE+APOS+ANOS+DOURADOS+AGORA+E+A+VEZ+DE+ANOS+REBELDES.html

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